O lava-pés pelo Papa Emérito Bento XVI
Depois dos discursos com o
ensinamento de Jesus na sequência da sua entrada em Jerusalém, os evangelhos
sinóticos retomam o fio da narração, com uma datação exata, que conduz à Última
Ceia.
Na abertura do capítulo 14, Marcos começa
escrevendo: “A Páscoa e os Ázimos seriam dois dias depois” (14,1); em seguida
fala da unção em Betânia e também da traição de Judas, e continua: “No primeiro
dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os seus discípulos
perguntaram a Jesus: ‘Onde queres que façamos os preparativos para comeres a
Páscoa”’ (14, 12).
João, por sua vez, diz
simplesmente: “Antes da festa da Páscoa, (...) durante a Ceia...” (13, 1-2). A
ceia, de que fala João, ocorre “antes da Páscoa”, enquanto os sinóticos
apresentam a Última Ceia como Ceia Pascal, partindo assim, aparentemente, duma
data que diverge de um dia relativamente à de João.
Devemos retornar às questões,
objeto de grande discussão, que dizem respeito a essas cronologias diferentes e
ao seu significado teológico, quando refletirmos sobre a Última Ceia de Jesus e
sobre a instituição da Eucaristia.
A hora de Jesus
“[...] Antes da festa da Páscoa,
sabendo Jesus que chegara a sua ora de passar deste mundo para o Pai, tendo
amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1). Com a a
Última Ceia, chegou a Hora de Jesus, para a qual se orientava a sua atividade
desde o princípio (cf. 2, 4). O essencial dessa hora é delineado por João com
duas palavras fundamentais: é a hora da “passagem”; é a hora do amor (ágape) “até
o fim”.
As duas expressões clarificam-se
reciprocamente, sendo inseparáveis uma da outra. O amor é precisamente o
processo da passagem, da transformação, da saída dos limites da condição humana
votada à morte, na qual todos estamos separados uns dos outros e, no fundo,
impenetráveis uns aos outros – numa alteridade que não podemos ultrapassar: É o
amor até o fim que realiza a “metábasis”
aparentemente impossível: sair das barreiras da individualidade fechada – eis o
que é o ágape; a irrupção na esfera divina.
A hora de Jesus é a hora da grande “passagem
mais além”, da transformação, e esta metamorfose do ser realiza-se por meio do ágape,
É um ágape “até o fim” – expressão essa com que NJoão, neste ponto, remete de
antemão para a última palavra do crucificado: “Está consumado – tetélestai”. Esse fim, essa totalidade
da doação, da metamorfose de todo o ser é precisamente o dar-se a si mesmo até
a morte.
[...]
Ouçamos agora como continua o
evangelista: Jesus “levanta-Se da mesa, depõe o manto e, tomando uma toalha,
cinge-se com ela. Depois, coloca água numa bacia e começa a lavar os pés dos
discípulos e a enxugá-los com a toalha que estava cingido” (Jo 13, 4-5). Jesus
presta aos seus discípulos o serviço do escravo, “humilha-Se a Si mesmo” (Fl 2,
7).
Aquilo que diz a Carta aos
Filipenses, no seu admirável hino cristológico – isto é, que, num gesto
contrário ao de Adão, que tentara com as próprias forças apoderar-se do divino,
Cristo desceu da sua divindade tornando-Se homem, “assumiu a condição de servo”
e fez-Se obediente até a morte de cruz (cf. 2, 7-8) – tudo isso ficou visível
aqui num único gesto. Com um ato simbólico, Jesus ilustra o conjunto do seu
serviço salvífico. Despoja-Se do seu esplendor divino, ajoelha-Se por assim
dizer diante de nós, lava e enxuga os nossos pés sujos, para nos tornar capazes
de participar no banquete nupcial de Deus.
[...] O gesto do lava-pés exprime
isto mesmo: é o amor serviçal de Jesus que nos tira fora da nossa soberba e nos
torna capazes de Deus, nos torna “puros”.
(Jesus de Nazaré – Da entrada em
Jerusalém até a Ressurreição, Planeta, p. 60-62)